2026-05-01

O sacrifício dos agricultores: uma catástrofe antropológica e social

João Vieira, Agricultor Guardião de Sementes
Conselho Fiscal da CNA


Porque é que os “arquitectos” da sociedade actual decidiram sacrificar os agricultores e, concomitantemente, o seu Mundo Rural a pretexto de que um país desenvolvido não deve ter mais do que 2% da população no campo?
Quem é responsável por este processo que parece irreversível?O produtivismo estende-se a todas as produções, tendo como consequências o desenraizamento, mercantilização, exploração do trabalho e dos recursos naturais, artificialização e digitalização. Produções deslocalizadas enquanto dominam Finança e Tecnociência. De Agronomia já nem ouvimos falar.Este verdadeiro etnocídio trará consequências graves. A factura terá um preço elevado, será paga em diferido durante tempo. Sempre dissemos na CNA que sem agricultores não há agricultura e sem agricultura não há país. Mas há quem não se preocupe com isso, a começar pelos que estão sentados na cadeira do poder e teimam em não reconhecer a importância da agricultura de rosto humano enraizada no território, com produções diversas e de qualidade nutricional, antes promovem e apoiam a produção da chamada matéria-prima de origem agrícola, para abastecer os grandes merceeiros do seculo XX!
Comparáveis aos senhores feudais da Idade Média que nos seus castelos tudo dominavam.
No entanto, os sinais de que o modelo já está esgotado são visíveis. Senão porque protestam os agricultores “modernos e competitivos” um pouco por toda a Europa dos monopólios? Queixam-se que os rendimentos não chegam para pagar as despesas, que estão à beira da falência. Quem ficou com o fruto do seu trabalho? Os bancos? A grande distribuição? O complexo agro-industrial? A Confederação das Indústrias AgroAlimentares em Bruxelas deve saber!... Acresce que este nível de produtores são os favoritos da Política Agrícola Comum (PAC) e mesmo assim não chega. Então o caso é grave. Tanto quanto se sabe foram penalizados nas ajudas por não cumprirem as normas do novo figurino da PAC. Foi dito que nalguns países foram até confiscadas terras. O facto é que a aplicação do novo figurino não se encaixa na prática e é um imbróglio.


Cereais, geo-estratégia e traços de guerra
Com o conflito na Europa de Leste muito se especulou sobre a possível falta de trigo e que seria a fome generalizada, diziam. Diz o ditado que “O medo é que guarda a vinha”.
Entretanto, nessa altura, deixámos de ouvir falar no assunto porque o problema era outro, os celeiros ou silos a abarrotar de trigo por essa Europa fora, mas sem escoamento.
E os produtores não realizam dinheiro para suas despesas. Por outro lado, multinacionais que controlam a logística global do sector seguram o trigo a 400€ a tonelada enquanto só pagam à produção 150€ a tonelada. Então motivos de descontentamento não faltam.
Sobre este assunto, em Portugal estamos no fio da navalha. É melhor não contar muito com o trigo que os outros têm, até porque esses trigos são produzidos em condições, no mínimo, deploráveis. Queixam-se os moageiros que os trigos importados não cumprem as normas e chegam cheios de lixo. Por todas as razões devemos ter o trigo que pudermos por perto, até por razões de saúde e bem-estar.
O Ministério da Agricultura, ou o que dele resta, elaborou uma tímida tentativa de recuperação, mais exclusiva do que inclusiva, porque a condição por receber ajuda à produção passava por um estímulo à intensificação. Quem não l atingisse o volume exigido por hectare ficava de fora.
Assim não fica evidenciada a vontade de aumentar a produção de trigo no todo nacional, porque há diferenças e condicionantes que não estão na mão dos produtores.
É a mesma lógica de sempre, ajudar os que menos precisam. Só se o programa era apenas de boas intenções e chamava-se “show-off”.

Este ano comemoramos os 52 anos do 25 de Abril e dos seus ideais, que também contemplavam uma agricultura ao serviço do país, num quadro de Soberania Alimentar.
O processo foi interrompido, mas a resistência à opressão continua sob a forma de uma sementeira para as ideias que libertam, em paralelo lançar à terra as sementes de trigos ancestrais que alimentam e dão força para a luta. Colheremos o que semearmos.